Uma carga de placas de vídeo RTX 5090 avaliada em R$ 2,5 milhões foi furtada do terminal de cargas do Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) em 21 de setembro e só veio a público quase um mês depois, quando a dona da mercadoria, a distribuidora paranaense Oderço, denunciou o caso nas redes sociais. Desde então, a história ganhou contornos de filme: câmeras mostram o desvio, a polícia investiga uma possível troca de etiquetas, uma das placas apareceu à venda na internet por R$ 32 mil e todas tiveram a garantia cancelada.

As placas são da fabricante Zotac e vinham de Miami, nos Estados Unidos. O valor de R$ 2,5 milhões é o preço de custo, cerca de US$ 470 mil. No varejo brasileiro, uma RTX 5090 custa hoje entre R$ 33 mil e R$ 39 mil, segundo o AEROIN, que revelou o caso.

Como a carga sumiu do Aeroporto de Guarulhos?

A mercadoria chegou ao Brasil em 20 de setembro e ficou no terminal de cargas (TECA) aguardando a liberação da Receita Federal. No dia seguinte, antes de qualquer autorização, ela já não estava lá. De acordo com o boletim de ocorrência obtido pela Band, câmeras de segurança registraram:

  • dois operadores de empilhadeira, funcionários de uma empresa terceirizada, retirando os pallets do armazém sem autorização registrada no sistema;
  • um terceiro funcionário, um conferente, liberando a carga no sistema, o que permitiu que ela passasse pelos controles eletrônicos;
  • os volumes sendo colocados em um caminhão, que deixou o terminal sem ser barrado.

A Receita só autorizou a liberação em 25 de setembro, quando as placas já tinham saído.

Reportagem no Jornal da Band mostra o que se sabe sobre o "sumiço".

A principal linha de investigação é uma troca de etiquetas. Segundo a Band, o caminhão estava autorizado a retirar outra carga, de menor valor e já liberada. Os pallets de RTX 5090 estariam com a etiqueta dessa outra mercadoria, o que explicaria por que o sistema do aeroporto não deu alerta. Com base nessa hipótese, os funcionários podem ter sido "induzidos ao erro". A Polícia Civil e a Polícia Federal investigam o caso em conjunto, e até agora ninguém foi preso pela retirada da carga.

Linha do tempo do caso

  • 20 de setembro: a carga chega de Miami a Guarulhos;
  • 21 de setembro, 13h30: os pallets são retirados do armazém, segundo a Oderço;
  • 24 de setembro: a GRU Airport, concessionária do aeroporto, registra boletim de ocorrência;
  • 25 de setembro: a Receita Federal libera a carga, que já não estava no terminal;
  • 5 de outubro: uma das placas é vendida no Mercado Livre por R$ 26.450;
  • 14 de outubro: o aeroporto informa a Oderço sobre o sumiço e orienta o pedido de indenização;
  • 17 de outubro: a Oderço torna o caso público;
  • 21 ou 22 de outubro: a polícia prende em flagrante um homem que anunciava uma das placas;
  • 22 de outubro: a Oderço cancela os números de série de todas as placas desviadas.

RTX 5090 furtada apareceu à venda por R$ 32 mil

A seguradora da carga passou a monitorar anúncios na internet e encontrou uma RTX 5090 da Zotac à venda na OLX por R$ 32 mil. A foto do anúncio mostrava parte do número de série, que batia com o lote desviado. Policiais da DIG de Americana localizaram o vendedor em Santa Bárbara d'Oeste (SP), encontraram a placa instalada no computador dele e o prenderam por receptação.

RTX 5090 produto de furto aparece em loja online.
RTX 5090 produto de furto aparece em loja online.

O caso, porém, mostra como qualquer comprador pode cair nessa armadilha. O homem apresentou o comprovante: tinha comprado a placa no Mercado Livre em 5 de outubro, por R$ 26.450, e chegou a pedir nota fiscal ao vendedor, que nunca respondeu. Na audiência de custódia, o juiz Dalton Lacerda Vidal Vital Filho relaxou a prisão por entender que não havia, naquele momento, indício de que ele sabia da origem ilegal, segundo o Diário de Justiça. Os anúncios do vendedor no Mercado Livre foram suspensos.

Placas perderam a garantia no mundo todo

Para dificultar a revenda, a Oderço repassou os números de série à Zotac e à Nvidia, e as placas foram canceladas na base das fabricantes. "Elas perderam a garantia aqui no Brasil e no mundo todo", disse o presidente da distribuidora, Oderço Matos, em vídeo citado pelo Antihype. A placa continua funcionando, mas qualquer defeito fica por conta de quem a tiver.

O que dizem a Oderço e o aeroporto de Guarulhos

A Oderço, distribuidora de Maringá (PR) com mais de 38 anos de mercado, afirmou em comunicado no Instagram que nunca tinha passado por algo parecido e questionou como uma carga desse valor "some dentro de um aeroporto internacional sem que a empresa receba uma resposta sobre o caso". A empresa diz que só tornou o caso público porque não recebia explicações.

A GRU Airport declarou que "a não localização da carga já foi formalmente reportada às autoridades competentes para apoio nas investigações". A concessionária disse ainda que, em 14 de outubro, passou à distribuidora as orientações para iniciar o processo de indenização e que aguarda os documentos.

Oderço Distribuidora, empresa acionou seguro após "sumiço" de carga.
Oderço Distribuidora, empresa acionou seguro após "sumiço" de carga.

A demora de quase um mês para o legítimo dono tomar conhecimento do sumiço e a fragilidade da segurança em um dos maiores terminais de carga do país acende o alerta para o consumidor brasileiro, que muitas vezes encontra no mercado paralelo a oportunidade de adquirir produtos mais em conta.

Como não comprar uma RTX 5090 furtada

Com dezenas de placas ainda desaparecidas, quem pretende comprar uma RTX 5090 usada, especialmente da Zotac, precisa redobrar o cuidado:

  • Desconfie do preço: placas anunciadas muito abaixo de R$ 33 mil merecem atenção;
  • Peça a nota fiscal de origem antes de pagar e confira se o CNPJ é de uma loja ou distribuidora real;
  • Peça foto da etiqueta com o número de série e consulte o suporte da Zotac para ver se a garantia está ativa;
  • Evite vendedores sem histórico, sem nome ou sem selo de verificação nos marketplaces.

Se a placa vier sem garantia, isso pode indicar que ela é do lote furtado. Nesse caso, procure a polícia. Quem compra produto furtado pode ser investigado por receptação, e guardar comprovante de pagamento e o pedido de nota fiscal, como fez o comprador de Santa Bárbara d'Oeste, ajuda a provar a boa-fé.

O que ainda falta esclarecer

Há informações que divergem entre as fontes. A Oderço fala em dois pallets, mas a Polícia Civil cita um pallet de 423 kg. O boletim de ocorrência menciona também placas RTX 5070 e RTX 5080 no lote, e não apenas RTX 5090. Nenhuma das partes informou quantas placas foram levadas, quem preparou a troca de etiquetas nem para onde o caminhão seguiu. A investigação continua, e a maior parte da carga segue desaparecida.